Alfons Gardemann
A determinação que construiu uma grande empresa e um legado

O ano de 1963 foi marcante para o Brasil. Enquanto o país decidia pelo presidencialismo via plebiscito, mais uma família de imigrantes terminava uma viagem através do Atlântico para começar o sonho de criar raízes em solo brasileiro. Os passaportes dos Gardemann - os pais “Dona Nina” (Antonia Maria) Gardemann e Erich Gardemann e os filhos, entre eles, o caçula, Alfons Gardemann - foram carimbados de forma definitiva no dia 23 de maio de 1963.
Em busca de um futuro promissor, escolheram Londrina, município na região norte do estado do Paraná, para fixar moradia. Alfons Gardemann naturalizou-se brasileiro em 31 de agosto de 1982, mas a ligação com o Brasil atravessa gerações. O seu tetravô, o conde Ferdinand von Wydenbruck, foi credenciado diplomata para representar o império austro-húngaro no Brasil entre os anos de 1836 e 1840.
O jovem determinado rapidamente aprendeu a nova língua e em poucos meses, já frequentava a escola. Formou-se em Ciências Jurídicas na Universidade Estadual de Londrina, e o dom natural para os negócios o moveu para os mais variados empreendimentos. Inquieto e visionário, com o intuito de atender à demanda do mercado agropecuário, construiu o Village em 1993, o primeiro Recinto de Leilões homologado pelo Ministério da Agricultura. Anos depois, o Village redimensionou o core business, tornando-se um grandioso complexo voltado para eventos sociais e corporativos, e que oferece buffet com gastronomia internacional, uma de suas paixões.
Perspicaz, focado e destemido, investiu, em 1997, na compra de uma empresa de cadeados e fechaduras e dava início a um capítulo definitivo para a PADO e para a indústria dedicada à segurança no Brasil. Hoje, a PADO responde pela geração de 1.200 empregos diretos e lidera o mercado nacional de cadeados, fechaduras, ferragens, metais para portas e janelas, além de fechaduras eletrônicas.
Pai de Caroline e Alessandro, aprecia o tempo livre com familiares e amigos. O industrial Alfons Gardemann comanda os negócios de perto, com foco e entendimento de que é fundamental estar sempre bem informado. “Informação é o combustível para o crescimento”, diz ele.
Ao completar 60 anos da chegada da Alemanha ao Brasil, Alfons Gardemann concede uma entrevista exclusiva para a The Winners, onde fala sobre sua trajetória e deixa conselhos preciosos para os empresários do futuro. Confira!
“Uma visão que ficou gravada na minha memória foi o número de pessoas que andavam descalças, pisando naquela terra vermelha.”
The Winners – Quais as suas lembranças da chegada ao Brasil? Por que Londrina?
Alfons Gardemann – Lembro de ter ficado impressionado com o Rio de Janeiro, uma cidade maravilhosa. Um fato curioso: ao chegarmos ao Hotel Glória, onde ficamos hospedados, na descida do táxi, esqueci a máquina fotográfica no veículo. “Agora já foi”, pensei. Quando estávamos almoçando no hotel, o motorista apareceu com a tal máquina. Fiquei muito feliz com o gesto de boas-vindas.
Sobre a escolha de Londrina, a região tinha como atração o consulado alemão na cidade vizinha de Rolândia, além de uma colônia alemã e de judeus-alemães que já existia desde antes da guerra. Outro dado relevante é que meu pai tinha um colega com quem havia cursado Agronomia na Alemanha, e que residia na região.
Quando nos mudamos para a cidade de Londrina, uma visão que ficou gravada em minha memória foi a quantidade de gente que andava descalça, pisando naquela terra vermelha. Nos dias mais secos, a poeira vermelha também tingia toda a cidade. Perto de nossa casa, havia uma máquina de café que operava 24 horas. Era um barulho tremendo, além da poeira que produzia.
No mais, me adaptei e, depois de alguns meses, eu falava razoavelmente o português para frequentar as aulas. Fui matriculado no Colégio Marista, em agosto de 1963, depois no Colégio Canadá para fazer o 2º grau. Seguindo os estudos, me formei em Ciências Jurídicas na Universidade Estadual de Londrina.

Desde 2012, a PADO é líder na fabricação de cadeados
Fonte: ©WOWLAB
TW – O senhor acumulou experiência em diversas atividades. Em que momento compreendeu que deveria investir no setor industrial? Quais foram as suas motivações?
AG – Desde sempre eu empreendi. Nos anos 1980, lancei o Villággio do Engenho, condomínio horizontal na cidade de Cambé, um projeto inédito naquela época. Também fui pioneiro ao construir o Village, que completa 30 anos em 2023. Para celebrar a data, fechamos um show com Ivan Lins, cantor que se apresentou na inauguração, 30 anos atrás. É uma satisfação enorme, afinal, 30 anos não são 30 dias. É uma realização pessoal. Mas antes do Village, eu já tinha empreendimentos imobiliários, e terras arrendadas em Mato Grosso dedicadas à pecuária. Foram possibilidades que surgiram, assim como foi a aquisição da PADO, em 1997. Estou sempre atento às oportunidades, é isso que me motiva.
Por exemplo, há 15 anos, comecei a investir em biometano. Em seguida, fundamos a Geo Energy, com meu filho Alessandro como CEO. É um empreendimento de futuro, muito interessante porque é absolutamente ESG. É preciso estar de olho no que está acontecendo, mas acredito que o meu feeling também entra nesta conta.

Alfons Gardemann: “Começamos com cadeados, e depois fechaduras, ferragens para portas e janelas e hoje, fechaduras eletrônicas”
Fonte: Bruno Ferraro
TW – Considerando sua origem alemã e tendo vivido as diferentes fases da economia e do desenvolvimento do Brasil, o que lhe chama atenção? Quais são os pontos de aprendizagem, desafios e oportunidades ao longo desse período?
AG – A capacidade de adaptação que é preciso ter frente às mudanças repentinas econômicas é uma coisa desafiadora e nem todos conseguem superar. Muitos sucumbem. Esse talvez seja o maior desafio para os estrangeiros que implantam indústrias no Brasil. “O Brasil não é para principiantes”, frase cunhada de forma genial pelo maestro Tom Jobim. É preciso muito jogo de cintura e criatividade. Nesses 60 anos, vivendo toda essa oscilação da economia, e não é preciso ser economista para ver todas as transformações, e as mudanças repentinas e brutais, não uma, mas várias, que atravessamos. Foram vários planos econômicos incisivos, alguns que nunca tinham sido experimentados em qualquer outra economia. Fomos verdadeiras cobaias.

TW – O senhor é considerado um visionário, investiu em uma empresa de cadeados que hoje é líder nacional e soube diversificar seu produto com inovação e tecnologia. Atualmente, em um mundo de rápidas mudanças e de inteligência artificial, o que considera pontos de atenção aos gestores em formação e às empresas em busca de expansão?
AG – Começamos com cadeados, e depois ampliamos para fechaduras, ferragens para portas e janelas e hoje, fechaduras eletrônicas. Uma das coisas mais importantes nesses 26 anos de indústria foi a implantação de uma escola profissionalizante. 80% dos nossos gestores, gerentes e supervisores são ex-alunos da Escola Nina Gardemann, que criei em parceria com o Senai há 16 anos. O maior problema do Brasil é a falta de mão de obra qualificada. É preciso ter iniciativa e investir em educação e formação para ter colaboradores preparados. Ter um bom time é muito importante. O time é o coração da fábrica.
Cada ramo de atividade tem suas peculiaridades. Eu não me importo de ampliar a fábrica, mas ter mais uma unidade é complexo, não sei se teríamos a mesma produtividade nas demais unidades.

Investimento constante em tecnologia e inovação no parque fabril instalado em Cambé
Fonte: ©WOWLAB
TW – Muitos empresários procuram diversificar seus negócios, mas costumam permanecer em setores similares. No entanto, o senhor optou por outras áreas. De onde veio a iniciativa e como é atuar em setores tão distintos?
AG – O que eu recomendo a todas as pessoas é estar sempre muito bem informadas. Isso é a coisa mais valiosa que existe: a informação. Hoje, por exemplo, estou focando investimentos em incorporação de loteamentos e condomínios. Diante de toda a conjuntura mundial, o tijolo é a moeda mais sólida que você pode ter.
É preciso ter um projeto de excelência, com potencial de crescimento, é preciso inovar sempre. Sempre aparece uma novidade que se pode usar e aplicar, então cada empreendimento é um desafio, e o desafio é algo que também me move. Não existe receita.
TW – Hoje, na liderança do setor, o senhor acompanha os mercados em todo o mundo? Como vê a posição do Brasil e as possibilidades de investimento?
AG – O design é algo em constante evolução, então é preciso estar antenado. O nosso segmento metalúrgico também exige constante atualização do parque fabril. O número de máquinas no mercado, especialmente em automação, é o foco principal. A automação é imperiosa.
Eu sempre vou à Europa e converso com muitas pessoas do mercado financeiro, e a conclusão que se chega é que poucos querem investir na China; os Estados Unidos demandam um capital intenso; a Rússia atualmente não está no cenário do investidor; a Ásia abriga um risco para os negócios. Então, apesar de tudo, a América Latina é o melhor local para investir, e o Brasil se destaca no contexto. Temos um potencial enorme. No ano passado, o país recebeu U$80 bilhões de dólares em investimento.
“O que eu recomendo a todas as pessoas é estarem sempre muito bem informadas. Essa é a coisa mais valiosa que existe: informação.”
TW – O que se pode esperar da empresa a médio e longo prazo?
AG – Fazemos nosso planejamento quinquenal e para dez anos, mas logicamente dependemos do cenário econômico local, nacional e mundial. Eu acho que o Brasil está numa situação extremamente confortável como nunca esteve antes. Hoje, o superávit gerado pelo agronegócio e pela agroindústria é enorme. O Brasil não terá dificuldades na balança comercial como já teve diversas vezes e por períodos extremamente longos, fato que prejudicou muito o desenvolvimento do país. Não vejo nada que atrapalhe o crescimento do nosso mercado interno. E a PADO está muito bem posicionada, é sinônimo de cadeados, com 74% do Market Share e Top of Mind, onde 62% dos brasileiros quando pensam em cadeados e fechaduras, pensam PADO.
TW – Atualmente existe uma preocupação real das políticas de ESG nas empresas. Como o tema é tratado nas suas empresas?
AG – A prática ESG é, sem dúvida, um padrão que deve ser adotado por todas as empresas. Evidentemente que cada empresa tem suas peculiaridades e as políticas devem seguir essas realidades, seja uma indústria ou uma prestadora de serviços. Toda empresa deve se adequar às exigências e necessidades. Não existe uma receita pronta. A sustentabilidade e a responsabilidade social fazem parte dos pilares da PADO. Investimos fortemente em ações ambientais para reduzir os impactos da produção, como por exemplo, a estação de tratamento de efluentes, o sistema de osmose reversa, utilização de bioenergia em nosso parque fabril, entre outras iniciativas.
TW – É inevitável ao concluir a entrevista lhe perguntar: qual é seu legado? Que conselhos daria a jovens líderes?
AG – É preciso ter um planejamento com metas e objetivos. Assim que alcançar essa meta, nesse minuto, imediatamente, você deve traçar um novo objetivo, que seja muito além da meta que você criou até então. Isso deve ser algo contínuo, algo que vai ocorrer muitas vezes na sua vida. Logicamente depende da sorte, das circunstâncias, da conjuntura, do momento, então são vários fatores que conjugam esse método. Isso é algo pessoal, meu. Não foi algo que li, é uma experiência de vida. Ter objetivos, sempre escolher atividades em ramos promissores, e isso é algo que vai mudando, e para isso tem que estar muito bem informado e só tem um jeito: ler.

De um amigo...

BRÁULIO PASMANIK
Encontrei o Alfons pela primeira vez num almoço de confraria organizado pelo Carlinhos do Santa Luzia - espaço que reúne os melhores produtos de gastronomia do mundo. O restaurante era o Santo Colomba, em São Paulo, lugar de gente “boa gente” (que é o nome da nossa confraria) e que começa pelo chefe Alencar que é o mais gente boa de todos.
Dr. Alfons chegou de repente, se aboletou na cadeira em minha frente com duas garrafas de vinho nas mãos e, cinco minutos depois, já éramos bons amigos. Sua personalidade acolhedora e seu amor por celebrar com os amigos as coisas boas da vida são características que o tornam verdadeiramente excepcional. Todas as manhãs, o WhatsApp do nosso grupo começa com uma foto do nascer do sol tirada da sua janela.
Seja organizando eventos para comemorar conquistas pessoais ou simplesmente estendendo a mão para apoiar um amigo, ele repete seu compromisso de tornar as experiências compartilhadas memoráveis. Além de ser um amigo leal e um companheiro de celebrações, Alfons também é um líder respeitado em sua empresa. Seus colaboradores o veem como um exemplo de integridade e profissionalismo. Sua abordagem orientada para as pessoas, combinada com uma visão clara e um acordo com a excelência, estabelecem uma cultura de trabalho positiva e produtiva. Todos sabem do papel fundamental de Alfons no sucesso e crescimento da organização.
Seu espírito generoso, sua forma de honrar a vida e seu impacto positivo na economia do país são apenas algumas das muitas razões pelas quais ele merece essas palavras. Alfons é uma fonte constante de inspiração para todos nós e é um privilégio poder enaltecer suas qualidades e realizações. Que o seu legado continue a inspirar e iluminar o caminho de todos.
