Homenagem de Regina Duarte

Fonte: Alan Santos/PR
Foi no seriado Malu Mulher que se deu minha aproximação maior com o Boni, meu chefe. Ele já tinha ido me salvar... ops! Me buscar em São Paulo, naquele inverno de 1968 em que, recém casada e agoniada, me via submetida ao processo de falência da Excelsior, uma grande Emissora de TV na época.
Quando em 1979 Daniel Filho me convidou para participar do seriado de uma mulher desquitada passei a frequentar as reuniões de criação dos episódios da série em seu apartamento no Rio de Janeiro. Logo nos tornamos “namoridos” e foi nessa condição que pude me aproximar do fogo sagrado que transforma ideias e fantasias em arte e entretenimento para milhões de telespectadores. Passei a ter, além de tudo, o privilégio de conviver mais de perto com o Boni, o gênio das alquimias de uma Globo que foi, por mais de três décadas, exemplo de comunicação para o mundo.
O Boni descia depois da 20h, ficava no escurinho, atrás das câmeras, assistindo as últimas cenas do roteiro do dia. Ao final, dava boa noite a todos e, se fosse o caso, chamava alguém para algum toque importante. Eu, que sempre adorei aprender, torcia para ser premiada.
Quando ficou pronta a primeira chamada de Malu Mulher – na sua segunda versão, porque a primeira ele vetou e mandou, literalmente, jogarem no lixo – Daniel e ele chamaram o Dênis Carvalho, eu, Grisolli e alguns poucos privilegiados pra assistirmos a primeira versão da abertura de Malu. “Morri”, como diz a garotada hoje. Ao final, olhamos todos para o Boni, que estava sério e reflexivo. Em seguida, começou a falar de suas impressões pedindo ao Daniel e Luís Paulo, o editor, pra trocarem todos os takes em que eu aparecia sorrindo. O mestre me passava, assim, a senha mais importante de apropriação que um ator pode ter na criação de um personagem: “Malu não é mulher de sorrisos”, disse ele – sugestão que tive grande dificuldade de seguir à risca. Quem me conhece sabe.
Existem dicas de valor inestimável nesta minha profissão. Sobre Porcina, por exemplo, eu recebi: “é operística”. E “Raquel é ingênua, meio limitada”, me sugeriram sobre o paradigma da honestidade brasileira.
Em 1984 tive de me demitir da Globo para fazer Joana, primeira produção independente de ficção do país. Naquele ano, o seriado passou pela Manchete, pelo SBT e em seguida eu fiquei outros longos meses desempregada, “na geladeira”, como se diz.
Quando já começava a ficar assustada, Daniel e Boni me ligaram me oferecendo a Porcina, de Roque Santeiro. O meu anjo é forte. Alguém duvida? Abastecida com as dores e as delícias das últimas experiências, agarrei a oportunidade com toda a fúria de que um ator pode ser capaz.
Anos depois, Boni aprovou um projeto do Del Rangel – com quem eu estava casada – um seriado em que pude brincar de fazer uma mulher diferente em cada um dos 12 episódios. Doze novos autores da constelação mais brilhante da nossa teledramaturgia estiveram conosco tornando realidade o nosso “Retrato de Mulher”.
Tenho ainda um sonho – para esta passagem ou para a próxima – de fazer com o Boni um trabalho produzido por ele, com transmissão simultânea para todo o planeta. Proibido rir.
Falar disso me faz lembrar uma plaquinha que ele tinha em sua mesa de trabalho, voltada para quem se sentasse ali: “think bold” (pense ousado). Fico tentando até hoje.
Sua admirável capacidade de realização, força criativa, audácia, humor, sensibilidade e obsessiva busca pela perfeição fazem incomensuráveis minha admiração, cada vez maior, a cada dia que passa, por ele e por sua imensa obra pela cultura brasileira. Salve, mestre! Feliz novo ano de vida, muita saúde, paz, alegrias e todo o amor, de sua pupila e grande fã.
