Homenagem de Roberto Buzzoni

Da esq. para a dir.: Boni, Guga e Reynaldo, Mariza, Roberto, vó Nicota e Buzzoni
Fonte: Divulgação
Nossos pais eram irmãos. Eu e o Boni, então, seríamos primos. Mas, viramos bem mais do que isso. A vó Nicota foi nossa primeira paixão. Voz baixa e meiga, porém, firme e decidida. Recitava poesia para nós, em francês. A televisão foi a nossa segunda paixão. E lá se vão 50 anos trabalhando juntos.
O Boni não foi meu mestre só na TV. Foi meu guia turístico pelo mundo. Com ele, eu conheci vários países. E quando não ia comigo, organizava todo roteiro. Listava os melhores restaurantes, museus e shows. Nova York, ele conhece como um nova-iorquino. É amante do jazz e muito conhecido no meio artístico. No Village Vanguard, quando entramos, a banda parou de tocar e um dos músicos gritou: “Boni meu amigo brasileiro, que conhece jazz como poucos no mundo!”.
E nessa nossa longa trajetória, lembro de uma frase que ele repetia, toda vez que eu dizia que ele estava sendo rigoroso demais comigo: “Só perco tempo com quem acredito que vai aprender”. Comigo ele sempre foi mais crítico, até para deixar claro que não havia privilégio. Não foram poucas as vezes que discordamos sobre a melhor estratégia para a grade de programação da TV Globo. Mas ele sempre repetia: “Posso errar sozinho?”.
O Boni sempre foi muito ágil nas mudanças. E sempre para melhor. Mesmo que a ideia tivesse sido dele mesmo. “Mas foi você que pediu assim, Boni! Não ficou bom?” E ele respondia: “infeliz do homem que não muda de ideia”.
No dia em que o Boni deixou a TV Globo, ele passou na minha sala para se despedir. Como eu era o responsável pelas chamadas dos programas e novelas, olhou bem nos meus olhos e disparou: “nunca aprove a primeira versão da chamada, por mais que você goste. Ela sempre poderá ficar melhor”.
Há quase duas décadas, quando ganhamos a concorrência pública da TV Vanguarda, afiliada da Globo no Vale do Paraíba, ele disse: “vamos aceitar este desafio porque precisamos fazer uma televisão melhor do que tudo que já fizemos até hoje”. E ressaltou: “a Vanguarda será gerida por profissionais”.
Nossa Rede Vanguarda acaba de completar 17 anos. Sempre lutamos para fazer a melhor TV regional do Brasil. Conseguimos? Acredito que sim. Mas se ele perguntar isso agora, vou ter de responder: “a Vanguarda está ótima, Boni, mas podemos sim fazer melhor”. A única coisa que é impossível melhorar são os bolinhos de chuva e o café preto da vó Nicota. Uma linda lembrança do carinho que ela nos fazia, toda vez que íamos visitá-la.
"‘Só perco tempo com quem acredito que vai aprender’, dizia Boni, toda vez que eu dizia que ele estava sendo rigoroso demais comigo."
