Homenagem de Silvio de Abreu

Silvio de Abreu, autor
Fonte: Globo/Emadini d'Almeida
A primeira vez que vi o Boni, ele estava sendo atendido por um barbeiro em sua famosa sala da Vênus Platinada, como costumavam chamar o prédio da Globo naquela época. O ano era 1978 e eu estava sendo apresentado a ele como o mais novo autor da casa, já encarregado de escrever a próxima novela das 19h.
Devemos ter tido muitos encontros depois desse, mas me lembro vivamente de um outro, quando novamente, em sua sala, fui pedir demissão. A novela não tinha ido bem, eu briguei com o diretor e tudo saiu errado. Conversamos e ele ponderou, aconselhou, aceitou os meus argumentos e até segurou bravamente o seu temperamento, que diziam ser explosivo, quando eu me exaltei. Saí da Globo sentindo pena de não fazer mais parte do seu staff.
Mas, com o seu faro apurado, de bom administrador, não me esqueceu. Um ou dois meses depois, me aprovou como autor e diretor de vários programas do nascente Telecurso Segundo Grau, que a Globo produzia para a Fundação Roberto Marinho junto com a TV Cultura.
Depois, como em um enredo de filme dos anos 30, o grande Cassiano Gabus Mendes adoeceu e me indicou para continuar a sua novela, que andava lá pelo capítulo 100, mas ainda havia uns 90 a serem escritos. Nós nos reencontramos, voltei definitivamente para a Globo e lá se vão quase 50 anos.
Preciso dizer, de coração, que em todos os anos em que trabalhamos juntos tive o privilégio de conviver com a intuição, sabedoria e profissionalismo de um homem especialmente talhado para o lugar que ocupava. Sua pretensão em manter a televisão grande, rica, com classe, de bom gosto e ao mesmo tempo popular e relevante sempre permeou a sua administração.
Contam-se muitas histórias sobre o Boni, não sei se todas verdadeiras, mas elas já formam um folclore sobre ele. Uma delas é que numa discussão com alguém, apontando um erro, a pessoa teria dito: “mas eu fiz o que você mandou!” E ele retrucou: “e quem mandou você me obedecer?”
Quando ele saiu da Globo foi um baque geral. Nós nos perguntávamos: “como vamos sobreviver sem o nosso guru? Quem vai nos guiar, cobrar, encaminhar?”. Mas o alicerce que ele plantou na empresa era sólido demais para desmoronar com a sua saída.
Com relação às novelas, foi o Boni quem mais acreditou que um capítulo diário, popular, bem dirigido e atuado, que englobasse grandes valores de produção, atingiria em cheio o gosto do público. Foi ele quem levou para a Globo os melhores e mais importantes autores, atores e diretores do cinema, teatro e da televisão, quem estimulou avanços e exigiu qualidade em todos os aspectos de uma novela colocando o Brasil no mapa do entretenimento internacional.
Há sete anos, eu o procurei para um conselho. Havia sido convidado para assumir a direção geral de todas as novelas da Globo e queria saber se ele me via com capacidade para isso. Ele me disse: “se você for para este cargo e puder fazer tudo do seu jeito, da maneira que acredita, não hesite e vá em frente”. Foi o que eu fiz e, mais uma vez, a sua intuição e sabedoria não falharam.
Com enorme respeito e maior admiração, feliz aniversário.
