João Pimenta: o dono da emoção na SPFW Nº59
O estilista reafirma sua habilidade em transformar conceitos complexos em peças reais, em um cenário surpreendente na recém-inaugurada Estação CCR das Artes

Já dizia um certo sábio que, um bom desfile de moda é aquele que atrai a curiosidade e a emoção até mesmo daqueles que não entendem de moda. Mas em meio a tantos estímulos e conteúdos imediatistas aos quais somos expostos todos os dias atualmente, o que torna um desfile capaz de nos emocionar?
No dia 10 de abril - o penúltimo dia da edição nº 59 da SPFW que já carregava um público cansado das luzes e do fervo dos desfiles no JK Iguatemi - o estilista João Pimenta surpreendeu e emocionou ao nos convidar para assistir um espetáculo. Para isso, foi preciso combinar local, trilha sonora, ambientação e uma ideia ousada. Pimenta conseguiu o pacote completo, tendo como pano de fundo a grandiosidade da recém-inaugurada Estação CCR das Artes, espaço de espetáculos localizado junto à Sala São Paulo.

A coleção foi apresentada ao som do pianista Jonathan Ferr, que trouxe um toque de espiritualidade ao local ao tocar ritmos urbanos com influência brasileira e matriz africana através do jazz e do neo soul. O público acompanhou o desfile em uma arquibancada móvel, onde os modelos puderam desfilar entre os convidados - fazendo com que os que estavam mais perto, tivessem vontade de pegar no tecido.
O desfile, intitulado ‘Em Construção’, não foi atoa. João sabia que, para desconstruir algo, precisa-se antes, saber construir com maestria. E como estamos falando do mago da alfaiataria, vimos Pimenta se provocar, mudando seu processo criativo. Sua alfaiataria masculina bem-construída se beneficiou de um recurso feminino: a técnica moulage - a modelagem criada com o tecido diretamente no manequim. Paletós foram desconstruídos como se usados de forma lateral sobre o corpo, deixando um dos ombros de fora; camisas apareceram sem mangas, formadas apenas pelas palas frontais e traseiras; extensões das laterais de outras camisas se cruzaram sobre a cintura, unindo-se à calça e formando um macacão; jaquetas tinham costas abauladas ou com “pedaços” de modelagem aparentes, como se estivessem ainda em processo - em um contínuo exercício de construção e desconstrução.

Com esse trabalho manual, o estilista questionou, na prática, o papel da tecnologia na moda, um respiro contra o imediatismo e a produção em massa. “Estou com o tecido e um corpo, então consigo mexer muito mais. Estamos olhando para o guarda-roupa masculino, mesmo com a fluidez, não temos os godês e modelos bufantes que sempre temos”, explicou.

Na cartela de cores descomplicada, tons neutros e terrosos, branco, off-white, bege, cáqui, cinza, marrom e verde azulado. Coletes, gravatas, fraques e blazers, literalmente desconstruídos, cruzaram o teatro em mais uma comprovação de que o designer sabe muito bem o que faz. Trazendo referências clássicas, várias vezes nos transportamos para a beleza masculina dos anos 40 e 50, dentro daquele cenário teatral e elegante. Com apenas quatro mulheres na passarela, era impossível não ouvir as dezenas de mulheres na plateia elegendo quais peças usariam e quais - como eu - usariam até mesmo uma das peças masculinas.
Ao final, os modelos se posicionaram todos juntos em frente ao palco, para receber João Pimenta, que foi ovacionado de pé ao lado de Barbara Fialho, que fechou a apresentação. E foi ali que ele comprovou saber transcender o gênero, registrando um dos momentos mais históricos destes 30 anos de São Paulo Fashion Week, e talvez o melhor da temporada.

