“Mostramos que é possível aliar propósito a uma causa global urgente sem abrir mão da rentabilidade”
Com a Food To Save, LUCAS INFANTE está revolucionando o mercado de alimentos no País diante do amadurecimento dos hábitos de consumo dos brasileiros

Todos os anos, o mundo descarta um terço dos alimentos produzidos, o equivalente a 1,3 bilhão de toneladas. Essa montanha de comida consome uma quantidade preciosa de recursos, ocupa 1,4 bilhão de hectares de terras agrícolas e usa 2,5 quintilhões de litros de água. É como rasgar nota por nota, US$ 750 bilhões — US$ 40 bilhões, no Brasil. Ao mesmo tempo em que encabeça a lista dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, o Brasil ocupa a décima posição no ranking dos países que mais desperdiçam comida, segundo a ONU. Dados do IBGE revelam que cerca de 30% dos alimentos produzidos no país acabam no lixo, o equivalente a 46 milhões de toneladas por ano.
Na América Latina são jogados fora 127 milhões de toneladas, de acordo com cálculos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). O cenário é crítico em todos os elos da cadeia. O desperdício começa na colheita, quando 10% da produção se perde; passa pelo manuseio e transporte, com perdas de 50%, e pelas centrais de abastecimento (30%); e chega a supermercados e residências (10%), revela a ONG Banco de Alimentos. Por outro lado, 783 milhões de pessoas passam fome e um terço da população mundial enfrenta insegurança alimentar. E todo o desperdício de comida – ainda apta ou não para o consumo – que vira lixo, cria também emissões de gases de efeito estufa. Especialmente o metano, um gás poluente com potencial de dano à camada de ozônio 80 vezes maior do que o dióxido de carbono (CO2), piorando o aquecimento global e a crise climática. Juntamente com as perdas que acontecem durante a produção de alimentos, tudo isso significa de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa – quase cinco vezes mais do que o emitido no setor da aviação.
Essa situação chamou atenção do empreendedor Lucas Infante, que em plena pandemia, no ano de 2020, era dono de uma franquia do Carrefour Express na Espanha e se deparou com o problema do desperdício na prática, que acontecia por uma questão de falta de previsibilidade no controle de vendas. A experiência de Infante como dono de um supermercado o levou a refletir mais seriamente sobre os dois lados do desperdício de alimentos. O primeiro é o ato de jogar no lixo toneladas de produtos que estão aptos para o consumo. Do outro, as empresas que sofrem prejuízo financeiro com a curta vida dos perecíveis.
No final daquele ano, Lucas resolveu vir ao Brasil testar uma ideia de negócio que já havia visto funcionar na Europa mais de uma vez: criar um marketplace para vender o excedente de produção das padarias, restaurantes e supermercados.

Ou seja, produtos que estão bons para o consumo naquele dia, mas que, por normas, não poderiam voltar às prateleiras no dia seguinte. Ele convidou o amigo e ex-colega de trabalho, Murilo Ambrogi, para ajudá-lo a validar a ideia. Juntos, eles fundaram a Food To Save, um marketplace que conecta os consumidores com estabelecimentos parceiros que têm produtos próximos ao vencimento ou que não foram consumidos no dia. Os outros dois sócios são Fernando dos Reis (COO) e Guido Bruzadin (CTO).
Funciona assim: alimentos próximos da validade, com pequenas imperfeições, porém aptos e seguros para o consumo, são separados pelos comerciantes credenciados pela plataforma, que montam Sacolas Surpresa. O usuário que navegar no aplicativo poderá escolher sua sacola (sem saber os itens que vêm dentro) e comprar os produtos com descontos que podem chegar a 70%. Assim, o negócio torna-se lucrativo para o estabelecimento, para o consumidor e para o meio ambiente. Na plataforma, o cliente ainda escolhe o estabelecimento e se a Sacola Surpresa será doce, salgada ou mista. Nada mais. O conteúdo da compra, ele só conhecerá ao abrir o pacote. Por ser surpresa, a experiência é sempre divertida — o que será que veio? Está aí a grande sacada da Food To Save.
A foodtech faz a conexão entre duas das principais fontes de desperdício — de um lado, o varejo e os foodservice e, do outro, os consumidores, responsáveis globalmente por quase 30% de tudo o que é perdido ao longo da cadeia agroalimentar, da fazenda às nossas mesas.
"O principal desafio, desde o início da Food To Save, sempre foi e continua sendo cultural: ensinar as pessoas que uma comida que está fora do padrão ou próxima da data de validade está boa e é segura para o consumo."
Se os clientes da plataforma têm acesso a produtos com até 70% de desconto, os estabelecimentos conseguem vender “as sobras do dia” — o descarte representa um prejuízo anual de 2% a 6%, em média, do faturamento das empresas. Para se ter ideia, apenas os supermercados brasileiros perdem cerca de R$ 8 bilhões anuais. Ao longo de sua história, a Food To Save evitou a emissão de mais de 10 mil toneladas de carbono ao dar um fim mais nobre e justo aos alimentos, livrando-os dos aterros sanitários e alimentando pessoas. O marketplace já tem mais de 9 mil estabelecimentos e 6 milhões de consumidores cadastrados.
Agora, a Food To Save acaba de levantar uma rodada para escalar a plataforma, entrando em novas cidades e conquistando novos usuários nos mercados onde já opera: as 12 capitais do país, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Campo Grande, Vitória, Cuiabá, Fortaleza e Recife.
O modelo criado por Infante tem atraído a atenção dos capitalistas de risco. No fim de 2023, a startup levantou R$ 14 milhões, em rodada liderada pela DSK Capital. A captação contou também com a participação dos fundos Spectra e HiPartners e o Grupo Trigo, controlador das marcas Spoleto, China in Box, Koni Store, LeBonton e Gurumê. Apostaram também na foodtech Paulo Camargo (ex-presidente do McDonald’s no Brasil e atual CEO da Espaço Laser), João Branco (ex-VP de marketing da rede de fast-food) e João Galassi (presidente da Associação Brasileira de Supermercados).
Agora, a Food To Save quer ir mais longe: com a sua primeira aquisição estratégica da startup Fruta Imperfeita, a foodtech busca reduzir o desperdício de frutas e legumes no meio da cadeia produtiva e atingir a marca das 7 mil toneladas de alimentos salvos já em 2025. Para Infante, a aquisição coroa um ano de grande crescimento para a companhia, que teve um 2024 marcante, batendo mais de 5 milhões de downloads no app, com uma base de cerca de 8 mil parceiros cadastrados em todo o país. Nas próximas páginas, ele conta sobre essa trajetória, suas experiências e opiniões sobre a cultura desse processo no país e os próximos planos para um futuro sustentável e sem desperdício.

VIDI – A Food To Save cresceu muito em um curto período de tempo. Como foi esse processo e quais os maiores desafios enfrentados?
Lucas Infante – Iniciamos o negócio pelo Instagram, apresentando a solução de porta em porta. Depois, criamos um site e um aplicativo. Porém, o principal desafio, desde o início da Food To Save, sempre foi e continua sendo cultural: ensinar as pessoas que uma comida que está fora do padrão ou próxima da data de validade está boa e é segura para o consumo. Ou seja, trata-se de estabelecer uma nova cultura. Isso se agrava em um país que cultua a ideia de que “é melhor sobrar do que faltar” e onde se julga a qualidade de frutas, legumes e outros alimentos pela aparência. Para nós, essa barreira cultural sobre o desperdício de alimentos pode ser enfrentada com mais conscientização sobre o tema. Além disso, a educação sobre reduzir perdas e participar de um movimento sustentável também é fundamental para os negócios.
VIDI – A ideia da empresa surgiu enquanto você estava na Espanha. É fato que desperdício acontece no mundo inteiro, mas você enxerga diferenças comportamentais em relação à cultura do Brasil?
LF – O Brasil enfrenta uma dualidade marcante em relação ao desperdício de alimentos. De um lado, milhões de pessoas estão em situação de fome; do outro, o país está entre os que mais desperdiçam comida no mundo, chegando a cerca de 46 milhões de toneladas de alimentos descartados por ano. A cultura do excesso está enraizada, tanto nos lares quanto no setor alimentício, onde muitos empresários ainda veem o excesso como sinônimo de “boa alimentação”. Transformar essa mentalidade é um dos nossos maiores desafios e compromissos.
VIDI – As redes sociais ajudaram a viralizar o trabalho da Food To Save, mas você já afirmou que o grande desafio é educar os consumidores em relação ao alimento. Como isso está sendo feito?
LF – Continuamos utilizando nossas redes sociais para esse trabalho educacional, pois acreditamos ser fundamental mostrar como reduzir o desperdício de alimentos. Seja no nosso Instagram ou no nosso blog, compartilhamos dicas sobre o aproveitamento integral dos alimentos, incluindo receitas, planejamento de compras e armazenamento correto. Temos notado que os consumidores estão cada vez mais conscientes e engajados nesses processos para minimizar o desperdício.

VIDI – No início da jornada, vocês pessoalmente bateram na porta de estabelecimentos na capital paulista para explicar a ideia do negócio. E muitos os chamaram de malucos. Na sua opinião, o que faz grandes empresas e empresários apostarem na Food To Save atualmente?
LF – Mostramos que é possível aliar propósito a uma causa global urgente sem abrir mão da rentabilidade. Pelo contrário, gerando uma nova renda incremental para milhares de estabelecimentos. Hoje, o consumidor busca mais do que um produto; ele quer marcas genuinamente comprometidas com pautas ESG, que nunca estiveram tão em evidência. No setor alimentício, ignorar essa realidade pode significar perder clientes cada vez mais atentos ao desperdício de alimentos – um problema que já enxergam como solucionável.
VIDI – Você avalia que existe um perfil de pessoas mais adeptas à ideia da Food To Save? Uma diferença geracional, gênero, classe social...
LF – Identificamos um perfil de consumo bem definido: pessoas que buscam salvar alimentos e economizar com produtos de determinadas marcas por um valor mais acessível. Além do preço, elas querem fazer parte de algo maior, de um movimento que gera impacto positivo e contribui ativamente para a preservação do planeta.
VIDI – Como surgiu a ideia de integração com a empresa Fruta Imperfeita para evitar o desperdício de frutas e legumes e a inclusão do programa de assinaturas, para além das ‘sacolas surpresas’?
LF – A aquisição da Fruta Imperfeita aconteceu porque dividimos o mesmo propósito e compartilhamos valores no combate ao desperdício de alimentos. Também estamos trazendo a experiência do Roberto Matsuda (fundador da Fruta Imperfeita) e toda a história que ele tem em relação ao desperdício de frutas e legumes. Durante nossa aproximação, entendemos que nossas expectativas estavam alinhadas e decidimos expandir mais um canal para lutar contra o desperdício de alimentos no Brasil.
"A aquisição da Fruta Imperfeita aconteceu porque dividimos o mesmo propósito e compartilham os valores no combate ao desperdício de alimentos."
VIDI – Quais são os próximos passos da Food To Save?
LF – Nosso objetivo agora é consolidar cada vez mais a nossa presença nas praças onde já atuamos, ampliando nosso impacto e engajando ainda mais pessoas no movimento foodsaver contra o desperdício de alimentos.
VIDI – O que você diria para quem está começando a empreender no setor alimentício?
LF – Identifique a dor do mercado que você deseja solucionar e busque unir propósito ao seu negócio. Estamos falando de um setor que não apenas movimenta a cadeia econômica do país, mas que também tem um impacto direto na vida dos brasileiros e brasileiras. Comida é um assunto sério para todos, e seu negócio pode transformar realidades, gerando impacto tanto econômico quanto social e ambiental.

