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Numa democracia não há cavalo de pau!

Oferecido por Paulo Pandjiarjian

Economy & Law 38

Numa democracia não há cavalo de pau!

Em um cenário político e econômico de constantes mudanças e desafios, o Brasil tem vivido um processo de amadurecimento em sua democracia, refletido na sua trajetória econômica. Para ajudar a entender os avanços e retrocessos da economia brasileira, e como essas transformações se relacionam das mudanças políticas, a Economy & Law entrevistou um dos economistas mais respeitados do país, HERON DO CARMO. A sua análise sobre o passado e o presente da economia nacional fornece uma visão crucial sobre como o Brasil tem lidado com crises, planos econômicos e a constante busca por estabilidade, sem perder a esperança de um futuro mais próspero e equilibrado. A seguir, o professor Heron compartilha seus pensamentos sobre os momentos mais marcantes da economia brasileira e os caminhos possíveis para o futuro.

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Heron Carlos Esvael do Carmo é um renomado economista brasileiro, com uma carreira de mais de 40 anos dedicada ao estudo e à aplicação de conceitos econômicos. Atualmente, é Presidente do Conselho Regional de Economia da 2a Região de São Paulo e atua como Pesquisador da Fipe – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas desde 1977, período em que coordenou o IPC-Fipe por aproximadamente 25 anos. Além disso, é Consultor da Ponto MAP desde sua fundação em 2014.

Com vasta experiência acadêmica, Heron é professor associado e professor sênior no Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), onde suas pesquisas focam principalmente na economia geral, com ênfase em inflação e mercado de trabalho. Sua expertise é amplamente reconhecida, e ele frequentemente é consultado por veículos de comunicação para análises sobre a conjuntura econômica do Brasil. Seu legado acadêmico e sua contribuição para o desenvolvimento de políticas econômicas continuam a influenciar o cenário nacional.

Economy & Law – Professor Heron, em suas análises, o senhor sempre destaca a importância de se olhar para a economia brasileira a partir de uma perspectiva de longo prazo. Por que essa visão é tão fundamental para entender os avanços e retrocessos do nosso país?

Heron do Carmo – Acredito que, para entender de fato a economia de um país como o Brasil, é necessário ter uma visão mais ampla, que vá além das crises pontuais e dos momentos de instabilidade. O Brasil tem enfrentado dificuldades contínuas, como um crescimento econômico abaixo das suas potencialidades e altas taxas de inflação, mais também vivemos avanços significativos, como a democratização e melhorias em setores específicos. A visão de longo prazo nos ajuda a perceber que, embora a economia brasileira tenha enfrentado desafios recorrentes, o país também tem dado passos importantes em várias áreas. Ao olharmos para o longo prazo, podemos compreender que o crescimento econômico do Brasil não se resume a períodos de auge ou de crise, mas sim a um processo contínuo de ajustes, aprendizados e transformações que moldam o país ao longo das décadas. Essa perspectiva nos permite enxergar as vitórias e derrotas como partes de um ciclo maior, ajudando a construir um entendimento mais realista e abrangente sobre o futuro econômico do Brasil.

E&L – O senhor mencionou a importância da democratização e como a alternância de governos, em uma democracia, pode ser menos traumática do que em regimes autoritários. Como essa característica da democracia brasileira ajudou o país a atravessar momentos de crise econômica?

HC – A alternância de poder em uma democracia, embora nem sempre fácil ou rápida, tem um efeito estabilizador. No Brasil, ao contrário dos regimes autoritários, as mudanças de governo não provocam “cavalos de pau” econômicos, que podem gerar rupturas drásticas. Apesar das dificuldades, a democracia brasileira tem permitido que as transições sejam mais suaves. Claro, isso não significa que o processo seja simples. Mas, ao permitir maior negociação política, a democracia ajuda a garantir da continuidade de políticas públicas essenciais para a estabilidade, como o controle da inflação e o incentivo ao crescimento sustentável.

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Fonte: Adobe Stock

"Em muitos momentos, o controle da inflação tornou-se uma questão política central para os governos, que precisavam mantê-la sob controle para garantir a sua stabilidade e credibilidade perante a sociedade e o mercado."

E&L – Um dos maiores desafios da economia brasileira tem sido a inflação, que se arrasta desde a década de 1980. O senhor tem uma vasta experiência no estudo da inflação, especialmente como coordenador do IPC-Fipe. Quais são os principais fatores que explicam a persistência da inflação no Brasil?

HC – A inflação no Brasil sempre teve uma conotação muito além do econômico, ela também é política. Ao longo das últimas décadas, a inflação impactou diretamente o bolso dos brasileiros, afetando seu poder de compra, especialmente em itens básicos como alimentos. Esse impacto cotidiano gerou um ambiente de insegurança econômica, com efeitos profundos sobre a qualidade de vida da população. Mas a inflação tem também um efeito imediato nas eleções e, portanto, no governo. A cada ciclo eleitoral, a alta dos preços influencia diretamente as percepções sobre a condução da economia e o desempenho das gestões públicas.

Em muitos momentos, o controle da inflação tornou-se uma questão política central para os governos, que precisavam mantê-la sob controle para garantir a sua estabilidade e credibilidade perante a sociedade e o mercado. No entanto, a solução da inflação no Brasil sempre envolveu um processo complexo, que não se limita à criação de uma moeda estável, mas à responsabilidade fiscal, ao equilíbrio político e ao entendimento das mudanças globais. Controlar da inflação exige políticas consistentes, que vão desde o ajuste das contas públicas até da manutenção da confiança em instituições econômicas. É um desafio que, no Brasil, vai além da economia e se entrelaça com a própria governabilidade.

E&L – Em sua visão, os planos econômicos, como o Plano Cruzado e o Plano Real, tiveram papéis distintos na trajetória da economia brasileira. O que pode be aprendido com o sucesso do Plano Real e os fracassos dos outros planos?

HC – O Plano Cruzado, por exemplo, falhou porque tentou controlar a inflação através de congelamentos de preços, sem uma base sólida para sustentação. Embora tenha gerado um alívio momentâneo, a falta de reformas estruturais e de mecanismos robustos para garantir o equilíbrio fiscal levou ao seu colapso. Isso mostrou que medidas superficiais, sem um respaldo econômico consistente, tendem a gerar efeitos temporários e até agravar problemas estruturais. Além disso, o Plano Cruzado ilustrou como a pressão política pode comprometer estratégias econômicas que exigem disciplina e continuidade.

O Plano Real, por outro lado, foi um marco porque não só estabilizou a moeda, mas também fez o controle fiscal e a responsabilidade monetária se tornarem prioridades. Ele foi bem-sucedido porque combinou o combate à inflação com reformas institucionais e um forte compromisso com a responsabilidade fiscal. O principal aprendizado do Plano Real é que, para estabilizar a economia, é preciso ser pragmático, combinar reformas fiscais com o controle da inflação e estabelecer uma moeda estável. Isso exigiu uma coordenação muito cuidadosa de políticas públicas, além de um entendimento claro de que a estabilidade econômica só é possível se for acompanhada de um equilíbrio político e fiscal. O sucesso do Plano Real também demonstrou a importância da credibilidade do governo e da previsibilidade das políticas adotadas, fatores essenciais para restaurar a confiança dos agentes econômicos e garantir a estabilidade de longo prazo.

"No entanto, a resistência política e a falta de consenso em torno dessas reformas dificultaram um avanço significativo. O governo Temer conseguiu avançar na reforma trabalhista, mas em outras áreas a limitação foi visível."

E&L – Durante a crise econômica de 2015-2016, o Brasil enfrentou desafios enormes. A política fiscal adotada pelo governo Dilma Rousseff, com um ajuste conservador que se distanciou de sua implementação real, gerou turbulências políticas e econômicas. Como o senhor analisa esse período?

HC – A crise de 2015-2016 foi uma das mais difíceis da história recente do Brasil. O governo tentou implementar medidas fiscais rigorosas, como aumento de impostos e corte de subsídios, mas acabou sendo forçado a adotar uma “contabilidade criativa”, tentando mascarar os déficits públicos. Essa prática não só agravou a situação fiscal, mas também gerou um aumento da carga tributária e limitou a capacidade de o governo agir economicamente. O impacto social foi grave, com aumento do desemprego e da inflação.

Além disso, a crise revelou uma profunda falta de confiança do mercado e da sociedade na condução econômica do governo. A adoção de medidas fiscais impopulares, sem uma estratégia clara de comunicação e sem articulação política eficaz, aprofundou as tensões institucionais. A “contabilidade criativa” minou a credibilidade do governo tanto internamente quanto no cenário internacional, prejudicando investimentos e dificultando a retomada do crescimento. Esse período culminou no impeachment de Dilma Rousseff, o que, sem dúvida, revelou da complexidade de equilibrar a estabilização econômica com os interesses políticos. No final, a crise expôs como decisões econômicas desconectadas de um ambiente político estável podem comprometer seriamente a recuperação e a sustentabilidade econômica de um país.

E&L – Professor, em relação ao governo Temer, que sucedeu o impeachment de Dilma, o senhor acredita que as reformas implementadas conseguiram avançar de forma suficiente para superar os desafios econômicos do Brasil?

HC – O governo Temer adotou uma abordagem mais conservadora, com foco em reformas fiscais, como a reforma da previdência e tributária, além da adoção da “regra do teto de gastos”. No entanto, a resistência política e a falta de consenso em torno dessas reformas dificultaram um avanço significativo. O governo Temer conseguiu avançar na reforma trabalhista, mas em outras áreas a limitação foi visível.

A principal lição desse período é que, sem uma base política sólida e sem o apoio da sociedade, reformas estruturais ficam comprometidas. Embora as medidas adotadas tenham sido importantes para estabilizar parte da economia e restaurar um mínimo de credibilidade, elas não resolveram todos os problemas estruturais do Brasil. A aprovação da reforma trabalhista, por exemplo, foi um avanço relevante, pois flexibilizó relações de trabalho e buscou modernizar o mercado. Contudo, a falta de avanço na reforma da previdência e em mudanças tributárias mais amplas evidenciou a dificuldade em promover reformas profundas sem legitimidade popular. Assim, o governo Temer conseguiu avançar em pontos cruciais, mas não teve força política suficiente para concluir mudanças fundamentais necessárias para a recuperação plena e o crescimento sustentável do país.

E&L – Por fim, no contexto atual, o Brasil ainda enfrentou desafios fiscais com a PEC da Transição e a necessidade de um ajuste fiscal sustentável. O que podemos esperar para o futuro da economia brasileira?

HC – A PEC da Transição representou um alívio temporário, permitindo aumento de gastos, mas a longo prazo isso pode agravar ainda mais a situação fiscal do país. Embora essa flexibilização seja compreensível em um momento de necessidade social e econômica, ela carrega o risco de minar a credibilidade fiscal do Brasil caso não venha acompanhada de um plano sólido de ajuste a médio e longo prazo. O aumento do teto de gastos, por exemplo, pode oferecer um fôlego inicial, mas, sem um arcabouço fiscal crível e sustentável, a percepção dos investidores e do mercado pode se deteriorar, elevando o risco país e pressionando taxas de juros.

O Brasil precisa urgentemente de um ajuste fiscal real, que envolva cortes de gastos e reformas tributária e previdenciária, mas de forma estruturada e responsável. O desafio está em implementar essas mudanças sem prejudicar o crescimento econômico ou a estabilidade social. É preciso avançar em reformas que simplifiquem o sistema tributário, incentivem o ambiente de negócios e garantam maior previsibilidade para investimentos. A reforma administrativa também se faz essencial, já que a eficiência do gasto público tem impacto direto na sustentabilidade fiscal. Além disso, é fundamental que o governo crie mecanismos para equilibrar responsabilidade fiscal e inclusão social, de modo que programas essenciais não sejam comprometidos.

O país ainda tem muito a avançar, especialmente em termos de infraestrutura, educação e inovação, áreas fundamentais para o crescimento sustentável. Investir em infraestrutura é crucial para reduzir o chamado “Custo Brasil” e aumentar a competitividade da economia. Em educação, o foco deve ser em qualidade e formação técnica, preparando a força de trabalho para a nova economia digital. Já em inovação, é vital criar um ambiente propício para tecnologia e empreendedorismo, impulsionando setores estratégicos. O futuro da economia brasileira, portanto, dependerá de um equilíbrio delicado entre políticas fiscais responsáveis e investimentos em áreas-chave, garantindo crescimento sustentável sem abrir mão da estabilidade macroeconômica. Se esse caminho for seguido, o Brasil poderá construir bases mais sólidas para superar seus desafios históricos e se posicionar de forma competitiva no cenário global.

"O futuro da economia brasileira, portanto, dependerá de um equilíbrio delicado entre políticas fiscais responsáveis e investimentos em áreas-chave, garantindo crescimento sustentável sem abrir mão da estabilidade macroeconômica."

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Fonte: Paulo Pandjiarjian

Aprendizado

A entrevista com o professor Heron do Carmo nos traz uma análise profunda e ponderada sobre os desafios e avanços da economia brasileira. Seu olhar atento às lições do passado e a importância de políticas fiscais equilibradas oferece um guia valioso para o futuro econômico do país. Como ele bem destacou, a estabilidade econômica no Brasil depende de um esforço coletivo para equilibrar as contas públicas, garantir a continuidade das políticas de crescimento e enfrentar os desafios globais de forma estratégica e prudente.

Além disso, o professor ressalta que compreender a economia brasileira exige uma visão de longo prazo, que vá além das crises pontuais e foque em soluções estruturais. O Brasil, com sua história marcada por avanços institucionais e retrocessos econômicos, precisa consolidar um ambiente de estabilidade política e previsibilidade fiscal para atrair investimentos e estimular o crescimento sustentável. O fortalecimento das instituições democráticas, a adoção de reformas estruturantes e o compromisso com a responsabilidade fiscal são fundamentais para garantir uma trajetória econômica sólida e resiliente.

Por fim, fica claro que o futuro da economia brasileira está atrelado à capacidade do país de promover mudanças estruturais, investindo em educação, inovação e infraestrutura. Tais investimentos são essenciais para aumentar a produtividade, reduzir desigualdades e melhorar a competitividade no cenário global. Assim, o Brasil poderá não apenas superar desafios históricos, mas também se posicionar de forma estratégica em um mundo cada vez mais dinâmico e interconectado. O caminho é desafiador, mais, como reforçado pelo professor Heron do Carmo, com planejamento, equilíbrio e visão de futuro, é possível construir um ambiente econômico mais próspero e estável para as próximas gerações.

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Fonte: Adobe Stock

 

Red Pages