

Tercio Borlenghi Jr. é um empresário brasileiro que tem como missão de vida tornar o mundo mais sustentável. Aos 19 anos, quando começou a trabalhar com gestão de resíduos, enxergou que boa parte de tudo que era descartado poderia ser reaproveitado. Foi do seu espírito empreendedor e do olhar atento ao potencial do cuidado com o meio ambiente que surgiu a ideia de criar, em 1995, a Ambitec, que nasceu num momento no qual a pauta ambiental ainda engatinhava e a agenda ESG nem tinha essa nomenclatura. Foi essa visão de mundo que deu origem ao negócio que se transformou no que é hoje a Ambipar. À época, o conceito de circularidade já existia na cabeça do empreendedor. Isso aconteceu antes mesmo do termo Economia Circular ganhar notoriedade no Brasil. Tercio entendeu que valorizar resíduos e reintegrá-los na economia era o futuro e que apoiar a jornada das organizações em prol da sustentabilidade, da economia circular e da redução de emissões de gases do efeito estufa poderia ser um excelente negócio. E assim nasceu a Ambipar. Uma empresa que reflete a visão empreendedora e o compromisso de seu fundador com os seguintes pilares: não existe planeta B; quando o tema é meio ambiente, a maior responsabilidade, tanto da sociedade civil como das empresas, é preservá-lo para as futuras gerações.
Atualmente, a companhia possui duas verticais de negócio, a Ambipar Response, que atua em emergências ambientais e climáticas, e a Ambipar Environment, focada em soluções ambientais. Com ajuda de tecnologia e auxiliada por um Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, a Ambipar hoje é uma multinacional brasileira, líder global em soluções ambientais, com atuação em 41 países, em seis continentes, com 23 mil colaboradores e detentora de 25 patentes de soluções ambientais que auxiliam outras empresas a serem mais sustentáveis. Conta com equipes de biólogos, oceanógrafos, geólogos, geógrafos e engenheiros e oferece serviços de reabilitação de fauna e flora, licenciamento, auditoria e diligência ambiental, remediação de solo, estudos de risco, elaboração e execução de programas de monitoramento ambiental e geociências. O portfólio também inclui os planos de resposta à emergência, para evitar contaminações e mitigar impactos ambientais. As soluções desenvolvidas pela empresa são complementares e envolvem a gestão e a valorização de resíduos, a descarbonização, a economia circular e a consultoria em ESG. Entre as tecnologias de coleta de resíduos pós-consumo estão máquinas que entregam soluções para o recolhimento de embalagens para a reciclagem, com a possibilidade de gerar descontos aos usuários. A empresa desenvolve ainda parceria com cooperativas de reciclagem, em projetos que possuem um forte impacto social e oferece serviços de apoio para empresas, pessoas e entidades diante do desafio de compensar as emissões de gases de efeito estufa.
“Temos como compromisso ajudar outras empresas a cuidarem do planeta, aliando meio ambiente e desenvolvimento econômico.”
Na frente de combate às mudanças climáticas, a empresa gera créditos de carbono em projetos de conservação florestal, Redução de Emissões provenientes de Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) e restauração florestal Afforestation, Reforestation e Revegetation (ARR).

Fonte: Guilherme Lima
Atualmente, a Ambipar possui projetos de conservação e restauração de florestas que contribuem para a recuperação do solo, preservação dos recursos hídricos, desenvolvimento da fauna e flora local. Seu portfólio conta com projetos dedicados à preservação de mais de 2,5 milhões de hectares na Amazônia, com potencial de geração de 5 milhões de toneladas de crédito de carbono por ano. Com isso, a empresa viabiliza programas criados para minimizar os impactos gerados pelas mudanças climáticas e atua, por meio da Ambify, uma plataforma de tokens que simplifica projetos de neutralização e a redução de pegada de carbono de clientes e parceiros. A expansão dos negócios para a criação de uma plataforma completa de soluções ambientais foi impulsionada a partir dos processos de abertura de capital. Em 2020, a companhia estreou na B3, no Brasil, e em 2021, a Ambipar Response fez o mesmo na Bolsa de Valores de Nova York, a Nyse. Após os IPOs, foram realizadas diversas aquisições que transformaram a Ambipar na empresa que é hoje. Como resultado, a companhia subiu 147 posições no ranking Valor 1000, além de, em 2024, ser reconhecida como ação verde (green equity) pela B3 e certificada pela Standard & Poors, sendo a primeira empresa privada da América Latina a obter tal certificação. O reconhecimento veio após a companhia comprovar que mais de 50% das suas receitas advêm de negócios sustentáveis, além de operar com menos de 5% do faturamento proveniente de combustíveis fósseis.
A empresa também foi eleita por quatro vezes a melhor desenvolvedora de projetos florestais do mundo pelo Green Project Awards, prêmio internacional que reconhece produtos e serviços sustentáveis. Para conduzir todo o processo de integração das aquisições, em junho de 2023, Tercio, que estava na presidência do Conselho, retornou para o cargo de diretor-presidente da companhia. Sua liderança trouxe mais confiança e segurança aos investidores no futuro da companhia e um grande crescimento da empresa. Isso resultou, também, da expansão das atenções do mercado para o tema sustentabilidade — e apoiado pela expertise desenvolvida pela Ambipar em diversos segmentos e sua capacidade de oferecer serviços e produtos completos voltados à gestão ambiental, incluindo economia circular, regeneração, transição energética, descarbonização, prevenção, gestão e resposta a emergências e crises climáticas. Nas próximas páginas, Tercio fala sobre sua trajetória e os desafios da Ambipar em controlar os números do mercado e ser líder no caminho da sustentabilidade rumo ao futuro, ao mesmo tempo. Confira!

André Passos Cordeiro e Tercio, firmando a parceria entre Abiquim e Ambipar
Fonte: Divulgação
VIDI – Você fundou a Ambipar em 1995, um momento onde a pauta ambiental não era tão valorizada quanto atualmente. Como surgiu a ideia inicial e como foi esse processo?
Tercio Borlenghi Jr. – Aos 19 anos eu comecei a atuar com gestão de resíduos. Olhando todo aquele material, percebi que boa parte de tudo que era descartado poderia ser reaproveitado. Foi então que em 1995 fundei a Ambipar, uma empresa para valorizar os resíduos descartados com foco na descarbonização e na economia circular. Em 2008, criei a empresa que se tornou a Ambipar Response, para atendimento de emergências climáticas e ambientais. Desse modo criei um ecossistema visando sempre a proteção do Planeta e da sociedade.
“É responsabilidade da nossa geração começar a compensar e mitigar todo o impacto ambiental gerado até agora.”
VIDI – Em 2023 você voltou ao comando da empresa, em um momento em que a Ambipar enfrentava o desafio de reenergizar seu ritmo de crescimento. Após mais de um ano, como você enxerga o cenário da companhia no mercado?
TBJr. – A Ambipar está colhendo os frutos do período pós abertura de capital e de todos esses 30 anos de história, completados este ano. Aumentamos de tamanho e agora, estamos em processo de integração das empresas que adquirimos após os IPOs. Ampliamos o nosso leque de atuação dentro das soluções ambientais, desenvolvendo uma plataforma de serviços no formato one stop shop, ou seja, capaz de atender praticamente todas as demandas de sustentabilidade e responsabilidade ambiental dos nossos clientes. Em 2024, fechamos muitas parcerias com empresas, associações e instituições comprometidas com a sustentabilidade, com o estabelecimento de metas internas, redefinimos as nossas prioridades e expandimos a nossa atuação para 41 países, em 6 continentes. Com isso, vejo a Ambipar cada vez mais assumindo o seu papel de liderança global na oferta de soluções ambientais.

Acordo SAP e Ambipar: Pedro Correa e Tercio Borlenghi Junior
Fonte: Divulgação
VIDI – A Ambipar é líder em gestão ambiental e constantemente anuncia novos projetos e iniciativas voltadas para a sustentabilidade no Brasil todo. Dentro de um cenário atual, onde as empresas começam a se movimentar para trazer o ESG em suas políticas e se aproximar de seus consumidores que se preocupam cada vez mais com a questão, quais são os desafios em ser o fundador e CEO de uma empresa que respira a pauta?
TBJr. – Temos como compromisso ajudar outras empresas a cuidarem do planeta, aliando meio ambiente e desenvolvimento econômico. Aqui, entendemos que o reaproveitamento dos resíduos contribui para a circularidade da economia, o que representa o futuro da indústria. Os recursos naturais são finitos e essa é a única alternativa que existe para que os nossos netos e demais descendentes tenham um planeta para viver. É responsabilidade da nossa geração começar a compensar e mitigar todo o impacto ambiental gerado até agora. As mudanças climáticas estão aí. É cada vez maior a recorrência de secas extremas e enchentes que afetam a produção de alimentos e colocam em risco a existência de diversas espécies de animais e até a segurança física e alimentar das pessoas. O planeta é um só. Se não cuidarmos dele, estamos colocando em risco a nossa própria sobrevivência como seres humanos.
VIDI – Durante o Climate Week 2024, em Nova York, a Ambipar anunciou o serviço “Net Zero as a Service”, uma solução desenvolvida em parceria com a SAP, que tem como objetivo apoiar empresas na gestão de suas emissões de carbono e na busca pela neutralidade. Também foi anunciada a parceria com a Dow Química para expandir a oferta de resina feita 100% de material reciclado. Poderia nos contar mais sobre essas novidades?
TBJr. – Por meio da parceria firmada entre a Ambipar e SAP oferecemos aos clientes o serviço ‘Net Zero as a Service’, em apoio ao combate às mudanças climáticas. O serviço combina as robustas soluções em nuvem da SAP, que incluem o SAP Sustainability Footprint Management, SAP Green Token, SAP Sustainability Data Exchange e SAP Sustainability Control Tower, associados à nossa expertise na geração e comercialização de créditos de carbono. Com isso, a Ambipar ajuda os clientes da SAP a gerenciar e compensar emissões de carbono de forma integrada. Isso é possível a partir de uma plataforma que foi desenvolvida pelas equipes da SAP e da Ambipar na América Latina. A ferramenta fornece aos clientes globais soluções para toda a jornada de descarbonização, podendo neutralizar emissões adquirindo créditos de carbono internacionalmente certificados por meio da plataforma de tecnologia da Ambipar, a Ambify. Já a Dow tem um forte compromisso com a Economia Circular, o que é um desafio para a indústria química. Por isso, a empresa buscou a Ambipar para cooperar com ela na coleta de material reciclável e no desenvolvimento de tecnologias capazes de transformar os diversos resíduos plásticos em novas resinas. Essa parceria envolve tanto as unidades de negócio de gestão de resíduos e indústrias da Ambipar, quanto os centros de P, D&I de ambas as empresas.

Tercio Borlenghi Junior e Leticia Jensen – Vice-Presidente de Embalagens e Plásticos de Especialidades para a Dow América Latina
Fonte: Divulgação
VIDI – O mercado de carbono foi aprovado no Brasil ao mesmo tempo que o acordo para a pauta foi aprovado na COP 29, em novembro, sob críticas dos especialistas que acreditam na falta de debate para instaurar o mercado regulado. Qual sua opinião sobre o panorama do mercado de carbono no Brasil e no mundo, neste momento?
TBJr. – A sanção da lei que regulamenta o mercado de carbono no Brasil fortalece o trabalho conjunto entre os mercados regulado e voluntário, o que possibilita às empresas com metas de descarbonização utilizarem créditos voluntários como solução complementar. Essa legislação envia uma mensagem clara ao mundo: de que o Brasil está comprometido com o mercado de carbono e que o entende como ferramenta essencial para apoiar na redução das emissões dos gases de efeito estufa. Além disso, a lei vai colaborar com as regulamentações internacionais, como o Artigo 6.4 do Acordo de Paris, que permite a troca bilateral de créditos entre países. Mas, para o Brasil maximizar essa oportunidade, será fundamental investir em acordos bilaterais e fortalecer a diplomacia climática.
VIDI – Qual o objetivo da Ambipar com o acordo fechado com a Be8, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, para uso de biocombustíveis para abastecer operações e equipamentos da companhia?
TBJr. – O acordo da Ambipar com a Be8 tem como objetivo nos ajudar no processo de descarbonização das nossas operações. Em 2023, 91,6% de toda a energia que consumimos foi proveniente de fontes renováveis, como energia solar, hidrelétrica e eólica, adquirida no mercado livre e com certificado I-REC, que garante a rastreabilidade da energia consumida. Nosso foco é promover transição energética alinhada aos nossos valores de economia circular e descarbonização, mas ainda temos uma parte da operação que utiliza combustíveis fósseis, que resultou em emissões de 80,6 mil toneladas de CO₂ equivalente, considerando as emissões diretas de combustão móvel (Escopo 1) e emissões indiretas (Escopo 3), em 2023. Por isso, temos buscado continuamente reduzir essas emissões por meio de tecnologias mais limpas e uma maior integração de combustíveis alternativos em nossas operações. O biocombustível da Be8, o Be8 BeVant, foi visto como uma alternativa por ser capaz de ser utilizado 100% puro substituindo o diesel para reduzir em mais de 90% as emissões de gases de efeito estufa no uso em veículos em comparação ao diesel. Na primeira fase de testes, vamos utilizá-lo em 10 caminhões, uma embarcação e equipamentos de uma operação de gestão de resíduos que ainda adotam combustíveis fósseis. A partir dos resultados, vamos analisar a possibilidade de ampliar a utilização em nossas frotas e de parceiros.

Tyler Li - presidente da BYD, Stella Li - CEO da BYD Américas e Tercio, firmando parceria estratégica para transformar desafios ambientais em soluções inovadoras
Fonte: Guilherme Lima
VIDI – A Ambipar sempre esteve engajada com as instituições de ensino. Um grande destaque foi a parceria com a Universidade Mackenzie para promover a valorização de resíduos e a economia circular no desenvolvimento dos profissionais. Agora, a parceria é com a USP, para promover as pesquisas de economia circular, em especial com o biodigestor de resíduos orgânicos e tornar a USP uma das primeira universidades carbono neutro do país. Poderia nos contar mais sobre?
TBJr. – A Ambipar investirá R$ 5 milhões e apoiará a USP no desenvolvimento de iniciativas de descarbonização para que a universidade seja carbono neutro até o fim de 2025. Com isso, a Universidade de São Paulo se tornará uma das primeiras universidades no mundo com esse título. Para a promoção das pesquisas, foi inaugurado no fim do ano o USP proClima, que fica no campus da universidade em São Paulo. Ele terá cinco áreas de pesquisas, sendo Gerenciamento de Carbono e Soluções Baseadas na Natureza, Prevenção de Desastres, ESG, Economia Circular, Gestão de Resíduos Sólidos e Geração de Energia Renovável. No centro de pesquisa, serão utilizadas tecnologias como energia fotovoltaica e biodigestor, um sistema inovador que transforma resíduo orgânico em energia, licenciado pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), modelo que pode ser replicado em diversas cidades. O USP proClima é coordenado pela professora Patrícia Iglecias, que foi secretária do meio ambiente do estado de São Paulo e presidente da CETESB e é conselheira de sustentabilidade da Ambipar e tem entre os conselheiros a ex-ministra do Meio Ambiente e presidente do Comitê Global de Sustentabilidade da Ambipar, Izabella Teixeira, além de especialistas, pesquisadores e docentes, que atuarão em parceria com a empresa para desenvolver soluções que beneficiem a sociedade e o planeta.
VIDI – Com os Millenials e a Geração Z dominando a internet, ditando as novas tendências do mercado e mostrando-se cada vez mais preocupados com o consumo consciente e impacto ambiental, como o senhor enxerga o futuro do planeta?
TBJr. – O futuro do planeta é hoje. Se não cuidarmos do planeta hoje, não teremos nada amanhã. Não existe planeta B e, independentemente da geração, é dever de todos cuidar do planeta A, esse que temos. No entanto, eu vejo a juventude muito mais engajada, conectada com o meio ambiente e com o olhar mais atento para a sustentabilidade no cotidiano, mais consciente em relação ao consumo e à economia circular, mais preocupada em reciclar, em separar o lixo, em preservar as matas e florestas e sensibilizada com as mudanças climáticas. O olhar dessa juventude para a sustentabilidade bem como essas pequenas ações no dia a dia são muito importantes para o presente e para o futuro porque é o que semeamos hoje que garantirá um planeta amanhã.
“Eu vejo a juventude muito mais engajada, conectada com o meio ambiente e com o olhar mais atento para a sustentabilidade no cotidiano, mais consciente em relação ao consumo e à economia circular, mais preocupada em reciclar, em separar o lixo, em preservar as matas e florestas e sensibilizada com as mudanças climáticas.”
VIDI – O que podemos esperar da Ambipar para 2025 e o futuro?
TBJr. – Em 2025, a Ambipar está com um foco muito grande na integração de seus processos, bem como na consolidação da sua posição de liderança, ampliando sua atuação e buscando sinergias que resultem em mais solidez financeira e excelência na sua atuação. Seguiremos ampliando nossa atuação global, desenvolvendo parcerias que ajudem a impulsionar a adoção de processos sustentáveis na cadeia produtiva, além de continuar trabalhando nas respostas em emergências, que estão cada vez mais urgentes em meio ao cenário de mudanças climáticas. Seguiremos apoiando nossos clientes e parceiros na busca por soluções que os tornem cada vez mais sustentáveis. Queremos ainda trabalhar bastante em prol de resultados positivos na COP30, em novembro, no qual vemos uma excelente oportunidade para o Brasil liderar o avanço na agenda de redução das emissões de gases do efeito estufa e na busca por financiamento do processo de descarbonização da economia de países em desenvolvimento, com foco em compensação e mitigação.

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